Bem-vindo à página ARQUIVO 2006-2016 da Presidência da República Portuguesa

Nota à navegação com tecnologias de apoio

Nesta página encontra 2 elementos auxiliares de navegação: motor de busca (tecla de atalho 1) | Saltar para o conteúdo (tecla de atalho 2)
Visita ao Centro de Formação  da Escola da Guarda (GNR)
Visita ao Centro de Formação da Escola da Guarda (GNR)
Portalegre, 11 de fevereiro de 2016 ler mais: Visita ao Centro de Formação  da Escola da Guarda (GNR)

INTERVENÇÕES

Clique aqui para diminuir o tamanho do texto| Clique aqui para aumentar o tamanho do texto
Discurso do Presidente da República nas Comemorações dos 250 Anos da Região Demarcada do Douro
Casa do Douro, Régua, 10 de Setembro de 2006

Completam-se hoje 250 anos sobre a fundação da Região Demarcada do Douro, através da instituição, por alvará régio, da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e de um sistema de regulação da produção e comércio dos seus vinhos, cuja concepção de base se estendeu até aos dias de hoje.

Assim se dava resposta à representação enviada ao Rei pelos lavradores do Alto Douro e pelos homens bons da cidade do Porto.

A data, 1756, é muito significativa e pode constituir para nós um primeiro elemento de reflexão. Menos de um ano após o terramoto que destruiu Lisboa e outras zonas de Portugal, o país mobilizava-se num extraordinário esforço de reconstrução. Não obstante, não se perderem de vista os interesses superiores da economia nacional e até se conseguiu encontrar uma solução profundamente inovadora para os problemas que então o Douro enfrentava.

O génio visionário dos portugueses de setecentos que fixaram as bases da primeira região demarcada e regulamentada do mundo, antecipando em mais de dois séculos os modernos conceitos de uma Denominação de Origem Controlada, foi um marco tão forte como a pedra granítica utilizada na altura para definir o perímetro dos vinhedos destinados ao vinho do Porto.

Temos hoje o dever de assinalar e de enaltecer o notável pioneirismo dos homens da época, que souberam definir um modelo duradouro de controlo da qualidade e de certificação dos vinhos da região que se revelou determinante para o reconhecimento universal da excelência dos vinhos do Douro e, em especial, do Vinho do Porto.

É, por isso, com grande prazer que me associo a estas comemorações, em representação do povo português que, muito justamente, se orgulha desta região e do seu riquíssimo património, moldado ao longo de muitos séculos pelo esforço e pela perseverança dos viticultores do Douro.

Aqui se evidenciaram, ao longo dos tempos, a determinação, a audácia e a resistência dos que, enfrentando adversidades, cultivaram e cultivam a vinha, desde a antiguidade até aos nossos dias, completando o que a natureza pôs à sua disposição, ainda que de uma forma dura e muito exigente.

Aqui, no Douro, o homem resgatou à natureza terrenos que pareciam condenados à inutilidade. Venceu o meio adverso, impôs a sua vontade e criou uma região e uma paisagem magnífica em aliança perfeita com o ambiente.

Foi esta “dramática escultura dinâmica” que constitui o Alto Douro Vinhateiro que, em 2001, a UNESCO inscreveu como Património da Humanidade, na categoria de paisagem cultural porque a sua criação é um feito do homem.

Já não é apenas a excelência do vinho do Porto que é mundialmente reconhecida, é também a excelência da região, das suas gentes, do seu ambiente e da sua cultura.

O reconhecimento mundial desta colossal obra colectiva é, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade para os durienses e para todos os portugueses, pois significa que a sua preservação exige uma intervenção humana constante.

O Vinho do Porto, designado no Alvará Régio de há 250 anos como “vinho de embarque”, devido à sua longevidade e aptidão para suportar longas viagens, tem podido manter-se durante séculos como um dos nossos produtos mais competitivos no mercado mundial.

A histórica importância do Vinho do Porto na nossa economia, e em particular no nosso comércio externo, justificam plenamente que se celebre a sua existência e se reafirme a defesa da autenticidade, integridade e excelência dos produtos e da paisagem da Região. Estes são factores essenciais à valorização das actividades em torno da produção dos vinhos do Porto e do Douro.

Fazemo-lo significativamente nesta Casa do Douro, que representa os viticultores durienses, bem como as suas associações e adegas cooperativas da região demarcada.

Saúdo por isso os seus representantes aqui presentes e felicito os organizadores destas magníficas comemorações.

Mas a exaltação destas riquezas não deve impedir-nos de reflectir e agir sobre o muito que há ainda a fazer para desenvolver e fazer frutificar todas as potencialidades da Região, transformando-as em melhoria do bem-estar e do rendimento das populações, excessivamente dependentes dos ciclos conjunturais do mercado mundial do vinho.

Todos os esforços devem convergir para aumentar a competitividade do sector, garantindo a lealdade da concorrência e reforçando nos consumidores, nacionais e estrangeiros, a confiança quanto à origem e qualidade dos vinhos produzidos na Região.

Num mercado cada vez mais globalizado que a todos se impõe, a liberdade de comércio surge como uma oportunidade, desde que haja capacidade de inovação e de ajustamento permanente às exigências crescentes do mercado.

Para além do esforço que cabe ao Estado na criação das condições de desenvolvimento do sector adequadas aos novos tempos, é aos agentes económicos que compete cultivar bem as vinhas, produzir bons vinhos, promovê-los, comercializá-los e afirmá-los nos mercados nacionais e, sobretudo, nos mercados externos.

A estratégia a seguir para desenvolver a Região do Douro terá que ter sempre como centro a sua riqueza cultural, a sua paisagem e os seus vinhedos, mas não pode restringir-se à produção de vinho, por mais excelente que ele seja.

Deve assentar, certamente, na viabilização das actividades tradicionais e na preservação dos recursos naturais, mas tem que alargar-se a outras actividades, designadamente ao turismo, que tem aqui todas as condições para se desenvolver, desde que sob formas sustentáveis e inovadoras.

Não creio que os durienses temam as mudanças ou desanimem perante as dificuldades. Já provaram sobejamente, ao longo da história, a sua força para enfrentar o que parece adverso, a capacidade de resistir e persistir em fazer mais e melhor.

Este é o quadro que ainda hoje temos: um povo marcado pela vontade de dominar a natureza. Uma região que soube adaptar-se a todas as transformações, resistindo até às doenças da vinha mais terríveis. Um vinho criado para ser exportado e que se manteve durante séculos como um dos mais reconhecidos a nível mundial.

Os vinhos do Porto e do Douro são mais do que um produto. São uma cultura. São um património. Um património colectivo que é a expressão da arte e do saber de um povo.

E assim continuará obrigatoriamente a ser. Porque Portugal é também o vinho do Porto, esse precioso néctar com que se brinda para selar os grandes momentos da vida das pessoas, dos países e do Mundo.

Que assim continue a ser no futuro são os meus votos.

© Presidência da República Portuguesa - ARQUIVO - Aníbal Cavaco Silva - 2006-2016

Acedeu ao arquivo da Página Oficial da Presidência da República entre 9 de março de 2006 e 9 de março de 2016.

Os conteúdos aqui disponíveis foram colocados na página durante aquele período de 10 anos, correspondente aos dois mandatos do Presidente da República Aníbal Cavaco Silva.